sábado, 31 de outubro de 2009
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Quem Planta Cana em Ladeira 15 - (laboratório)
De uma antiga história dos tempos da cultura do açúcar
XV
Sinhá disse que o maldito não me roubou nada, que respeitasse eu o pai dos meus netos, a desculpa é que ele toma conta do engenho porque estou velho. Agora, mas justo por ele já ter se metido a mandar em tudo, fiquei assim, os nervos me deixaram inválido. Primeiro a questão da invasão do desvio do riacho, depois a história da derrubada da mata sem necessidade. Matou boi sem consentimento, castigou negro sem precisão, apartou famílias sem carecer. Eu ainda sou o senhor desse engenho, tenho que ser ouvido sobre as minhas posses. Glaudium meum, et corona mea, dizia meu pai nos poucos latins que tinha, falava com razão, se o engenho é meu por direito e justiça, de quem são os mandos e vontades? O engenho ainda é meu. Meus gostos. Só restou a de que aquele não entre aqui no salão azul, essa é a única vontade vigente.
O sogro de Conceição, nos tempos de grandes prosperidades, foi avisado pelo encarregado do transporte do açúcar que as autoridades do Recife não permitiam mais o carro de boi entrar cantando nos limites da cidade. Na moagem, toda semana, o velho mandava mais de dez cargas para o porto. O fiscal dizia que os carros chegavam ainda madrugada escura e principiava incomodando o sono dos pracianos com o rangido das rodas no eixo. Tinha que afrouxar a cunha e olear para os carros entrarem na cidade sem barulho, se não, pagaria uma multa. O Senhor do Roda d’Água cismou, os carros dele cantavam desde o tempo do pai, não iriam parar por ordem de inspetor nenhum, pagava a multa, desapegava da sovinice, mas os carros deles entravam cantando na cidade. Se ria da lei, pilheriava: Aperta a cunha e bota sebo, quem paga a multa é Melazedo.
O senhor do engenho tem que ter as suas manias, seus caprichos, se não for assim, para que serve tanta labuta, tanta contrariedade? Já vi de tudo nessas artes, as terras de um homem é o seu domínio, o reinado que se cumpre a lei do dono. Capitulei, tomaram meu reinado, que desgraça, estou morto me bulindo, tem mais de dois meses que não levanto dessa rede, que saio desse salão. Vou mandar abrir a janela hoje, quero uma fresca da manhã, o agalegado deve ainda estar correndo as terras.
XV
Sinhá disse que o maldito não me roubou nada, que respeitasse eu o pai dos meus netos, a desculpa é que ele toma conta do engenho porque estou velho. Agora, mas justo por ele já ter se metido a mandar em tudo, fiquei assim, os nervos me deixaram inválido. Primeiro a questão da invasão do desvio do riacho, depois a história da derrubada da mata sem necessidade. Matou boi sem consentimento, castigou negro sem precisão, apartou famílias sem carecer. Eu ainda sou o senhor desse engenho, tenho que ser ouvido sobre as minhas posses. Glaudium meum, et corona mea, dizia meu pai nos poucos latins que tinha, falava com razão, se o engenho é meu por direito e justiça, de quem são os mandos e vontades? O engenho ainda é meu. Meus gostos. Só restou a de que aquele não entre aqui no salão azul, essa é a única vontade vigente.
O sogro de Conceição, nos tempos de grandes prosperidades, foi avisado pelo encarregado do transporte do açúcar que as autoridades do Recife não permitiam mais o carro de boi entrar cantando nos limites da cidade. Na moagem, toda semana, o velho mandava mais de dez cargas para o porto. O fiscal dizia que os carros chegavam ainda madrugada escura e principiava incomodando o sono dos pracianos com o rangido das rodas no eixo. Tinha que afrouxar a cunha e olear para os carros entrarem na cidade sem barulho, se não, pagaria uma multa. O Senhor do Roda d’Água cismou, os carros dele cantavam desde o tempo do pai, não iriam parar por ordem de inspetor nenhum, pagava a multa, desapegava da sovinice, mas os carros deles entravam cantando na cidade. Se ria da lei, pilheriava: Aperta a cunha e bota sebo, quem paga a multa é Melazedo.
O senhor do engenho tem que ter as suas manias, seus caprichos, se não for assim, para que serve tanta labuta, tanta contrariedade? Já vi de tudo nessas artes, as terras de um homem é o seu domínio, o reinado que se cumpre a lei do dono. Capitulei, tomaram meu reinado, que desgraça, estou morto me bulindo, tem mais de dois meses que não levanto dessa rede, que saio desse salão. Vou mandar abrir a janela hoje, quero uma fresca da manhã, o agalegado deve ainda estar correndo as terras.
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
terça-feira, 20 de outubro de 2009
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
domingo, 11 de outubro de 2009
sábado, 10 de outubro de 2009
Quem Planta Cana em Ladeira 14 - (laboratório)
Esboço de uma tentativa de romance em capítulos curtos de uma velha história da cultura do açucar
XIV
Lúciamaria não era feia, ponta de rama, mirrada, com certa graça, cabelos negros, olhos redondos, vivos. Não se comparava a Socorrinho nem a Conceição na formosura puxada da mãe com quadril fino, ancas arqueadas, busto farto. Pensei que um aloirado grandão não ia se interessar pela miudinha, se engraçou. A caçula não negou a raça, parideira, fez barrigão, os meninos saíram graúdos, aguentou forte, boa de cria.
Mesmo sem gostar do marido dela nunca deixei de atender aos meus netos, filhos das minhas filhas meus netos são... Presenteava, mandei um potro puro para o mais velho logo que deu uns passinhos. Meus netos são. Não os proibi de entrar aqui no salão azul, até me entreteria. Nunca veio um, a avó ajeitando diz que estão no internato. Passaram as férias, não estou doido, sei das estações, ouvi a zoada deles acolá. Só não quero aqui o pai, esse é proibido, ele tomou as terras, o engenho os bichos e os cativos, mas o salão azul é meu refúgio o lugar da minha convalescência. Se fico bom, não acho, mas, se fico, se me volta a coragem, vou lutar pelo que é meu. Hoje me falta até para abrir a janela.
O mais velho já é rapaz, saiu mais ao pai, grandão agalegado, os olhos é que são da mãe, pretos, redondinhos. Disse Sinhá que Lúciamaria estava preparando-o para o seminário. Não sei se serve, o menino é afoito, Amaro fuxicou que o viu deitando com as negrinhas no meio das canas, acho difícil o celibato. Na raça, tirando Tio Luiz e a minha irmã Anita, ninguém quis saber de batina ou hábito. Minha Mãe sonhava com um filho padre, tentou muito. Três chegaram a ir para o seminário, nenhum fez os votos, eu não passei da segunda declinação nos latins. Mãe dizia que ia morrer muito feliz com apenas um. Não esse gosto. Respeitava os cônegos, sempre tinha um hospedado no engenho, ajudava na obra das almas, caridade dos lazarentos, era uma santa minha mãe. Dizia:
- Se no caminho você encontrar um padre e um anjo, cumprimente primeiro o padre, pois ele é o representante de Deus na terra, é mais do que um anjo mensageiro.
Santa mulher minha mãe, não tinha maldade.
Padre não deixa de ser homem, só não é se não quiser. Não atinava no internato, pequeno, besta, levei muito recado do Padre Cardoso para uma mulher na rua do colégio, não achava direito a cara dela no recebimento dos encontros marcados, não maldava, depois entendi. Padre sem-vergonha.
XIV
Lúciamaria não era feia, ponta de rama, mirrada, com certa graça, cabelos negros, olhos redondos, vivos. Não se comparava a Socorrinho nem a Conceição na formosura puxada da mãe com quadril fino, ancas arqueadas, busto farto. Pensei que um aloirado grandão não ia se interessar pela miudinha, se engraçou. A caçula não negou a raça, parideira, fez barrigão, os meninos saíram graúdos, aguentou forte, boa de cria.
Mesmo sem gostar do marido dela nunca deixei de atender aos meus netos, filhos das minhas filhas meus netos são... Presenteava, mandei um potro puro para o mais velho logo que deu uns passinhos. Meus netos são. Não os proibi de entrar aqui no salão azul, até me entreteria. Nunca veio um, a avó ajeitando diz que estão no internato. Passaram as férias, não estou doido, sei das estações, ouvi a zoada deles acolá. Só não quero aqui o pai, esse é proibido, ele tomou as terras, o engenho os bichos e os cativos, mas o salão azul é meu refúgio o lugar da minha convalescência. Se fico bom, não acho, mas, se fico, se me volta a coragem, vou lutar pelo que é meu. Hoje me falta até para abrir a janela.
O mais velho já é rapaz, saiu mais ao pai, grandão agalegado, os olhos é que são da mãe, pretos, redondinhos. Disse Sinhá que Lúciamaria estava preparando-o para o seminário. Não sei se serve, o menino é afoito, Amaro fuxicou que o viu deitando com as negrinhas no meio das canas, acho difícil o celibato. Na raça, tirando Tio Luiz e a minha irmã Anita, ninguém quis saber de batina ou hábito. Minha Mãe sonhava com um filho padre, tentou muito. Três chegaram a ir para o seminário, nenhum fez os votos, eu não passei da segunda declinação nos latins. Mãe dizia que ia morrer muito feliz com apenas um. Não esse gosto. Respeitava os cônegos, sempre tinha um hospedado no engenho, ajudava na obra das almas, caridade dos lazarentos, era uma santa minha mãe. Dizia:
- Se no caminho você encontrar um padre e um anjo, cumprimente primeiro o padre, pois ele é o representante de Deus na terra, é mais do que um anjo mensageiro.
Santa mulher minha mãe, não tinha maldade.
Padre não deixa de ser homem, só não é se não quiser. Não atinava no internato, pequeno, besta, levei muito recado do Padre Cardoso para uma mulher na rua do colégio, não achava direito a cara dela no recebimento dos encontros marcados, não maldava, depois entendi. Padre sem-vergonha.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
terça-feira, 6 de outubro de 2009
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
domingo, 4 de outubro de 2009
Passou no Meu Écran

Em 1932 o mundo ainda não conhecia os horrores da segunda guerra, as armas nucleares nem as facilidades da eletrônica, tudo, entretanto estava nascendo nesse primeiro terço de século. Nessa época, em São João – PE. Tio Alberto e minha Mãe, sementes também, os dois primeiros dos treze que viriam a desdobrarem-se em centenas, hoje e para muito mais.
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