quarta-feira, 18 de agosto de 2010
terça-feira, 17 de agosto de 2010
domingo, 15 de agosto de 2010
sábado, 14 de agosto de 2010
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Quem Planta Cana em Ladeira - (22) laboratório.
De uma antiga história da cultura do açúcar.
XXII
Ora, moenda a vapor! Veja se faltam inventar mais nada. Para mim o homem tinha que parar de mexer nas coisas que Deus fez. Já inventou o trem, corre mais que os pés dados pelo Senhor, não precisa de animal de tração. Depois a máquina de costura, uma invenção que Deus duvidou que se inventasse. Cheia de artifícios, agulha furada, coisa de se admirar. A novidade da moenda a vapor não me entra. Qual a serventia? Que necessidade, tanto negro vadiando, reproduzindo feito preá, não vejo carência para trazer do estrangeiro tanta peça fundida, mesmo, acho, que esse vapor todo, a quentura, faz mal. Só pode ofender. O trabalhador, o povo que passa por perto. Só pode trazer é doença.
Sinhá veio rezar o terço, me esqueci de perguntar. Perguntar alguma coisa que desde ontem estava pensando. O que será que danado foi? Sei mais não.
O moleque Damião conversou um pouquinho hoje. Muito alegre com os trastes que viu chegar da caldeira. Amaro trouxe no carroção. Deixei-o falar, falou muito, chega enjoei com a cantiga das palavras. Pior, os meus netos estão pegando esse jeito cantado da senzala. Escuto daqui. É uma moleza nas vogais, um embolado no fim das frases, umas respostas perguntadas. E a mania de diminuir os tratamentos, um dengo de paizinho, sinhozinho, sinhazinha, ave Maria! Parece mais dança do que fala.
Passei o dia esperando sinhá para ela me dá conta de alguma dúvida que tinha, mas esqueci, tirei uma madorna e esqueci-me de perguntar. O que queria saber mesmo?
Pedi a Damião que desse um recado ao negro Amaro. Sei que o moleque me respeita. Amaro bandeou-se para o genro maldito. Algum benefício há de conseguir em troca. Aquele não dá ponto sem nó. Pai dos meus netos, Deus me perdoe. Que se ele ainda tem alguma gratidão naquele coração preto que venha me visitar. Meus netos são. Quero saber do engenho. Soube por Damião que o Wanderley comprou o São Roque e o Santa Emília. Como? Com que dinheiro? Não posso me fiar só nas palavras desse menino. Vai que conta aumentado. A moagem desse ano deu para tanto? Quantas sacas? Quantos pães? As terras são minhas, não quero o dinheiro, quero a satisfação, prestação de contas ao senhor do engenho. Ainda não morri. Tomam-me como inválido. Não levanto dessa rede, pensamento muito atrapalha, sinto, muitas vezes. Inválido. Mesmo, daqui não saio, mas a cabeça trabalha.
Santo Deus, o que eu ia perguntar a Sinhá?
XXII
Ora, moenda a vapor! Veja se faltam inventar mais nada. Para mim o homem tinha que parar de mexer nas coisas que Deus fez. Já inventou o trem, corre mais que os pés dados pelo Senhor, não precisa de animal de tração. Depois a máquina de costura, uma invenção que Deus duvidou que se inventasse. Cheia de artifícios, agulha furada, coisa de se admirar. A novidade da moenda a vapor não me entra. Qual a serventia? Que necessidade, tanto negro vadiando, reproduzindo feito preá, não vejo carência para trazer do estrangeiro tanta peça fundida, mesmo, acho, que esse vapor todo, a quentura, faz mal. Só pode ofender. O trabalhador, o povo que passa por perto. Só pode trazer é doença.
Sinhá veio rezar o terço, me esqueci de perguntar. Perguntar alguma coisa que desde ontem estava pensando. O que será que danado foi? Sei mais não.
O moleque Damião conversou um pouquinho hoje. Muito alegre com os trastes que viu chegar da caldeira. Amaro trouxe no carroção. Deixei-o falar, falou muito, chega enjoei com a cantiga das palavras. Pior, os meus netos estão pegando esse jeito cantado da senzala. Escuto daqui. É uma moleza nas vogais, um embolado no fim das frases, umas respostas perguntadas. E a mania de diminuir os tratamentos, um dengo de paizinho, sinhozinho, sinhazinha, ave Maria! Parece mais dança do que fala.
Passei o dia esperando sinhá para ela me dá conta de alguma dúvida que tinha, mas esqueci, tirei uma madorna e esqueci-me de perguntar. O que queria saber mesmo?
Pedi a Damião que desse um recado ao negro Amaro. Sei que o moleque me respeita. Amaro bandeou-se para o genro maldito. Algum benefício há de conseguir em troca. Aquele não dá ponto sem nó. Pai dos meus netos, Deus me perdoe. Que se ele ainda tem alguma gratidão naquele coração preto que venha me visitar. Meus netos são. Quero saber do engenho. Soube por Damião que o Wanderley comprou o São Roque e o Santa Emília. Como? Com que dinheiro? Não posso me fiar só nas palavras desse menino. Vai que conta aumentado. A moagem desse ano deu para tanto? Quantas sacas? Quantos pães? As terras são minhas, não quero o dinheiro, quero a satisfação, prestação de contas ao senhor do engenho. Ainda não morri. Tomam-me como inválido. Não levanto dessa rede, pensamento muito atrapalha, sinto, muitas vezes. Inválido. Mesmo, daqui não saio, mas a cabeça trabalha.
Santo Deus, o que eu ia perguntar a Sinhá?
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
terça-feira, 10 de agosto de 2010
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
domingo, 8 de agosto de 2010
sábado, 7 de agosto de 2010
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Quem Planta Cana em Ladeira - (21) laboratório.
De uma antiga história da cultura do açúcar
XXI
Hoje é peixe novamente. Sexta-feira? Outra vez? E o batizado do menino? E o barulho do povo...
- Damião, que dia é hoje?
- Sexta-feira, padrinho, o peixe é Carapeba.
Senti o gosto, carne alva, leve, sabor da minha infância. Minha mãe só comia Carapeba, peixe da água baldeada, inverno. Inverno que Sinhá disse que há muito se foi.
- Damião? Que Carapeba é essa no verão?
- Verão alto é difícil, mas no finzinho num já aparece? Donana disse que o senhor ia gostar.
Sinhá ainda se preocupa com os meus gostos. Um traste velho arruinado numa rede. Mulher de fibra Donana, enverga mas não quebra. Onde foi casa é tapera, dizia Tio Oscar, por sinal fica o torrão, mesmo que a chuva desmanche, fica o sinal do fogão. Tio Oscar. Não lembro mais como ele era, perdi as feições.
Os traços da cara.
- Damião, escute, já passou o batizado do menino?
- Vai ser no Domingo, sim Senhor.
- Domingo não já passou?
- Passou não padrinho, hoje ainda é sexta.
Hoje é sexta mais uma vez, não foi na outra que Sinhá disse da missa e do batizado? Não vou teimar com esse moleque besta. Já num pé e noutro para recolher o prato. Não tem presa, peixe carece tempo, há espinhas, sinhá manda catar, uma e outra ainda escapam. Um engasgo com espinha pode matar um cristão, ainda mais um velho. Velho só quer desculpa pra morrer. Tio Vicente do engenho da Baixa Verde quase se passa com uma espinha de Arabaiana. Comeu umas quinze bananas para ver se descia, uma cuia de farinha, nada, tossia que nem cachorro velho. Tiveram que chamar um cirurgião barbeiro, o homem extraiu com uma pinça comprida, até febre deu no meu tio, depois. Parou de comer peixe, foi ruim, dizem que o papo dele cresceu por isso. Vai se saber?
Mas pode ser que Sinhá tenha dito do batizado na semana passada, e onde se escondeu uma semana inteira? Será que Deus tirou sete dias da minha vida sem eu sentir? Vou perguntar a Sinhá. Lembrei de uma sexta, sábado, estava esperando o domingo e já vem outra sexta? Donana tem que me dá ciência dessa semana que não vi passar. Que coisa sem jeito. Conto os dias, mas certeza mesmo só tenho das sextas, no prato do peixe.
Deu-me agora uma tontura, melhor não puxar muito pelo juízo, uma madorninha depois do almoço, isso, ajuda melhorar.
- Leva Damião, afaste de mim esse prato!
XXI
Hoje é peixe novamente. Sexta-feira? Outra vez? E o batizado do menino? E o barulho do povo...
- Damião, que dia é hoje?
- Sexta-feira, padrinho, o peixe é Carapeba.
Senti o gosto, carne alva, leve, sabor da minha infância. Minha mãe só comia Carapeba, peixe da água baldeada, inverno. Inverno que Sinhá disse que há muito se foi.
- Damião? Que Carapeba é essa no verão?
- Verão alto é difícil, mas no finzinho num já aparece? Donana disse que o senhor ia gostar.
Sinhá ainda se preocupa com os meus gostos. Um traste velho arruinado numa rede. Mulher de fibra Donana, enverga mas não quebra. Onde foi casa é tapera, dizia Tio Oscar, por sinal fica o torrão, mesmo que a chuva desmanche, fica o sinal do fogão. Tio Oscar. Não lembro mais como ele era, perdi as feições.
Os traços da cara.
- Damião, escute, já passou o batizado do menino?
- Vai ser no Domingo, sim Senhor.
- Domingo não já passou?
- Passou não padrinho, hoje ainda é sexta.
Hoje é sexta mais uma vez, não foi na outra que Sinhá disse da missa e do batizado? Não vou teimar com esse moleque besta. Já num pé e noutro para recolher o prato. Não tem presa, peixe carece tempo, há espinhas, sinhá manda catar, uma e outra ainda escapam. Um engasgo com espinha pode matar um cristão, ainda mais um velho. Velho só quer desculpa pra morrer. Tio Vicente do engenho da Baixa Verde quase se passa com uma espinha de Arabaiana. Comeu umas quinze bananas para ver se descia, uma cuia de farinha, nada, tossia que nem cachorro velho. Tiveram que chamar um cirurgião barbeiro, o homem extraiu com uma pinça comprida, até febre deu no meu tio, depois. Parou de comer peixe, foi ruim, dizem que o papo dele cresceu por isso. Vai se saber?
Mas pode ser que Sinhá tenha dito do batizado na semana passada, e onde se escondeu uma semana inteira? Será que Deus tirou sete dias da minha vida sem eu sentir? Vou perguntar a Sinhá. Lembrei de uma sexta, sábado, estava esperando o domingo e já vem outra sexta? Donana tem que me dá ciência dessa semana que não vi passar. Que coisa sem jeito. Conto os dias, mas certeza mesmo só tenho das sextas, no prato do peixe.
Deu-me agora uma tontura, melhor não puxar muito pelo juízo, uma madorninha depois do almoço, isso, ajuda melhorar.
- Leva Damião, afaste de mim esse prato!
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
terça-feira, 3 de agosto de 2010
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
domingo, 1 de agosto de 2010
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