Esboço de uma tentativa de romance em capítulos curtos de uma velha história da cultura do açucar
XIII
Na moagem, começo do verão, veio aquele lá com a conversa que ia derrubar a mata do guará. Achei graça, disse a Amaro: “Que anedota é essa? Primeiro que a mata é na minha terra, depois não carece derrubar um pau ali, estou guardando a madeira”. O negro disse que foi ordem do meu genro, vinha avisar só por consideração, o homem não pediu permissão, mandou cortar, ia plantar cana. Ora mais que diabos! Blasfemei em casa, Donana correu se benzendo: “tenha calma homem de Deus, largue disso embaixo do nosso teto”. Mandei chamar Lúciamaria, avisei que não queria me intrometer, arranjar querela com o marido dela, determinei: “na mata não se toca”.
Sinto uma moleza geral, doe-me todas as juntas. Sinhá veio rezar o rosário, não aguentei um terço, agarrei no sono, acordei entrevado, Donana não estava mais aqui.
Se derrubou não sei, ninguém me responde. Acho que a mata do guará acabou-se, virou lenha.
Amaro veio ontem aqui, cabisbaixo, sem me fitar, disse que a moenda parou para reparar, mas no fim da safra? Não respondeu, disse que o galego mandou levantar um galpão depois da estrada, não disse por que, pediu benção e saiu ligeiro. Esse negro tem escondido o ouro.
Sinto-me mal, muito doente, não sei o que tenho.
Sou um homem doente. Não tenho saúde para retomar o engenho daquele lá. Se eu tivesse filho homem...
Inválido. Igual ao irmão de Pedro Barros, um homem doente, desde moço, tinha um sopro, não sei bem o quê. Vivia sentado pelos cantos, a tudo que pediam, dizia:
- Não posso, sou um homem doente.
Comia bem, boca ruim a doença não botava, devagar, passo miúdo, arrastado. No verão, armava a rede na sombra, atravessada, de uma jaqueira a um pé de manga do oitão da capela, puxava a sesta até as quatro horas da tarde, se cansava. O irmão, para não falarem que serventia não havia, arranjou-lhe a missão de fiscal da moenda. Sentado, olhando a cana ser moída, tocaiando. Um belo dia veio um vergalhão no meio do feixe, não deu aviso, o ferro escangalhou a prensa, abriu em bandas. O Senhor Pedro Barros cobrou responsabilidade ao irmão, estava ali para evitar acontecimento daquela qualidade. Viu, respondeu que viu, não deu o alarme, faltou coragem para gritar aos negros guias dos bois da roda:
- Sou um homem doente – disse o vigia -, não posso ficar gritando muito alto.
Um homem doente. Sinto eu assim.
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