sábado, 10 de outubro de 2009

Quem Planta Cana em Ladeira 14 - (laboratório)

Esboço de uma tentativa de romance em capítulos curtos de uma velha história da cultura do açucar

XIV
Lúciamaria não era feia, ponta de rama, mirrada, com certa graça, cabelos negros, olhos redondos, vivos. Não se comparava a Socorrinho nem a Conceição na formosura puxada da mãe com quadril fino, ancas arqueadas, busto farto. Pensei que um aloirado grandão não ia se interessar pela miudinha, se engraçou. A caçula não negou a raça, parideira, fez barrigão, os meninos saíram graúdos, aguentou forte, boa de cria.
Mesmo sem gostar do marido dela nunca deixei de atender aos meus netos, filhos das minhas filhas meus netos são... Presenteava, mandei um potro puro para o mais velho logo que deu uns passinhos. Meus netos são. Não os proibi de entrar aqui no salão azul, até me entreteria. Nunca veio um, a avó ajeitando diz que estão no internato. Passaram as férias, não estou doido, sei das estações, ouvi a zoada deles acolá. Só não quero aqui o pai, esse é proibido, ele tomou as terras, o engenho os bichos e os cativos, mas o salão azul é meu refúgio o lugar da minha convalescência. Se fico bom, não acho, mas, se fico, se me volta a coragem, vou lutar pelo que é meu. Hoje me falta até para abrir a janela.
O mais velho já é rapaz, saiu mais ao pai, grandão agalegado, os olhos é que são da mãe, pretos, redondinhos. Disse Sinhá que Lúciamaria estava preparando-o para o seminário. Não sei se serve, o menino é afoito, Amaro fuxicou que o viu deitando com as negrinhas no meio das canas, acho difícil o celibato. Na raça, tirando Tio Luiz e a minha irmã Anita, ninguém quis saber de batina ou hábito. Minha Mãe sonhava com um filho padre, tentou muito. Três chegaram a ir para o seminário, nenhum fez os votos, eu não passei da segunda declinação nos latins. Mãe dizia que ia morrer muito feliz com apenas um. Não esse gosto. Respeitava os cônegos, sempre tinha um hospedado no engenho, ajudava na obra das almas, caridade dos lazarentos, era uma santa minha mãe. Dizia:
- Se no caminho você encontrar um padre e um anjo, cumprimente primeiro o padre, pois ele é o representante de Deus na terra, é mais do que um anjo mensageiro.
Santa mulher minha mãe, não tinha maldade.
Padre não deixa de ser homem, só não é se não quiser. Não atinava no internato, pequeno, besta, levei muito recado do Padre Cardoso para uma mulher na rua do colégio, não achava direito a cara dela no recebimento dos encontros marcados, não maldava, depois entendi. Padre sem-vergonha.

O Nobel Não Saiu - amplie

A Origem de Tudo - amplie

Silogildo O Diplomata 4 - amplie

domingo, 20 de setembro de 2009

A Caverna de Pla(nal)tão - amplie

Quem Planta Cana em Ladeira 13 - (laboratório)

Esboço de uma tentativa de romance em capítulos curtos de uma velha história da cultura do açucar

XIII
Na moagem, começo do verão, veio aquele lá com a conversa que ia derrubar a mata do guará. Achei graça, disse a Amaro: “Que anedota é essa? Primeiro que a mata é na minha terra, depois não carece derrubar um pau ali, estou guardando a madeira”. O negro disse que foi ordem do meu genro, vinha avisar só por consideração, o homem não pediu permissão, mandou cortar, ia plantar cana. Ora mais que diabos! Blasfemei em casa, Donana correu se benzendo: “tenha calma homem de Deus, largue disso embaixo do nosso teto”. Mandei chamar Lúciamaria, avisei que não queria me intrometer, arranjar querela com o marido dela, determinei: “na mata não se toca”.
Sinto uma moleza geral, doe-me todas as juntas. Sinhá veio rezar o rosário, não aguentei um terço, agarrei no sono, acordei entrevado, Donana não estava mais aqui.
Se derrubou não sei, ninguém me responde. Acho que a mata do guará acabou-se, virou lenha.
Amaro veio ontem aqui, cabisbaixo, sem me fitar, disse que a moenda parou para reparar, mas no fim da safra? Não respondeu, disse que o galego mandou levantar um galpão depois da estrada, não disse por que, pediu benção e saiu ligeiro. Esse negro tem escondido o ouro.
Sinto-me mal, muito doente, não sei o que tenho.
Sou um homem doente. Não tenho saúde para retomar o engenho daquele lá. Se eu tivesse filho homem...
Inválido. Igual ao irmão de Pedro Barros, um homem doente, desde moço, tinha um sopro, não sei bem o quê. Vivia sentado pelos cantos, a tudo que pediam, dizia:
- Não posso, sou um homem doente.
Comia bem, boca ruim a doença não botava, devagar, passo miúdo, arrastado. No verão, armava a rede na sombra, atravessada, de uma jaqueira a um pé de manga do oitão da capela, puxava a sesta até as quatro horas da tarde, se cansava. O irmão, para não falarem que serventia não havia, arranjou-lhe a missão de fiscal da moenda. Sentado, olhando a cana ser moída, tocaiando. Um belo dia veio um vergalhão no meio do feixe, não deu aviso, o ferro escangalhou a prensa, abriu em bandas. O Senhor Pedro Barros cobrou responsabilidade ao irmão, estava ali para evitar acontecimento daquela qualidade. Viu, respondeu que viu, não deu o alarme, faltou coragem para gritar aos negros guias dos bois da roda:
- Sou um homem doente – disse o vigia -, não posso ficar gritando muito alto.
Um homem doente. Sinto eu assim.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Quem Planta Cana em Ladeira 12 - (laboratório)

Esboço de uma tentativa de romance em capítulos curtos de uma velha história da cultura do açucar
XII
Hoje Donana mandou Zulmira varrer o salão azul. A poeira subiu. Passou um pano molhado. Tanto faz, sem me mexer, sujo ou limpo aqui não torna o esplendor dos tempos passados. Nas festas do Inverno, vinham os Senhores meus vizinhos. A sesta dos homens, se chovia, era aqui, transferida do alpendre, doze pares de armadores, feliz a camaradagem. Almoço findado, sinhá mandava servir as compotas. Depois armavam as redes lavadas cheirando a lavanda. Um dedo de prosa antes de ferramos no sono. Bons tempos. A desvantagem da sesta no salão azul era Joaquim Xindes, na varanda se perdia no vento, mas aqui dentro no abafado os peidos incomodavam, acostumamos depois. O Coronel estrondava um da rede dele e a risada era geral. Ria também, batia na barriga e pilheriava: “esse foi no capricho”. Boa pessoa o Senhor do Engenho Saltinho, quase dois metros, feito um touro. Comia. Nas festas, antes de sair de casa ordenava: “mulher bota o almoço mais cedo que hoje eu vou almoçar fora”. Tava que não andava de gordo nos últimos tempos, passou-se com uma constipação, Deus o tenha. Falava alto, recitava, cheirava tabaco. Era uma festa. Uma galinha, pelo menos, era dele, mais um quarto de bode, uma terrina de mel. Sinhá reservava, não podia faltar. Mexia com todo mundo, com as negras da conzinha, os moleques de recado, ninguém escapava a uma loa, uma brincadeira. Sinto falta daqueles tempos.
Antônio Guedes; João Coutinho; Júlio Bastos, homens de bem, amigos, servidores, nunca escapou um negro ou uma rés para as terras deles que não trouxessem de volta no outro dia. Uns morreram, Júlio foi-se da região, arruinou. Muito rico no passado, acendeu charuto com nota de cem mil reis, acabava de almoçar puxava a toalha da mesa com toda a porcelana em cima, deixava em cacos a louça inglesa só por desperdício, esbanjou a herança, perdeu engenhos em jogo, nos cabarés. Saiu com uma mão na frente e outra atrás. Desconheço onde findou.
Os amigos vão ficando nos atalhos e veredas, estou velho, temo perguntar a sinhá o paradeiro de algum. Foi-se, penso que vou ouvir, Foi-se que é ferro torto.