domingo, 30 de agosto de 2009
sábado, 29 de agosto de 2009
Quem Planta Cana em Ladeira 10 - (laboratório)
Esboço de uma tentativa de romance em capítulos curtos de uma velha história da cultura do açucar
X
Conhecer bem não conhecia, as referências foram boas. Donana disse, ajeitando, “com Jesus deu certo, e a família não era desconhecida?” Só porque da mata norte? Desconhecida para ela. Conheço muito bem, aparentados com o meu avô. E não veio de lá o pai do meu pai? Contava que mudou por uma vergonha que passou. Acertou com o presidente da província para abrir um trecho de estrada, fio de bigode em garantia, que em três meses entregava pronta. Nesse ano o inverno foi pesado o primeiro mês choveu o encomendado para o ano todo, meu avô teve muita dificuldade, os homens abriam a picada, batiam o barro e a chuva desmanchava, dobrou os trabalhadores, mandou buscar carroças, ferramentas, não teve jeito, a obra não rendia. Saibro batido, saibro lavado. Meu avô apertava os cativos, na derrubada das matas perdeu mais de trinta homens, dos sucedidos acidentes com os paus, de picada de cobra, fora os que aproveitavam para largar. Não deu. A empreitada levou quatro meses e dezessete dias. O Senhor meu avô prestou contas ao presidente, não quis receber nada, de vergonha. Vendeu tudo, terra, casa, cativos, deu quase de graça, mudou-se, vexado por não ter cumprido o prazo ajustado. Botou a mulher, as crianças e as tralhas em treze bestas e em quatro carroções. Saiu sem saber direito para onde ia, acabou aqui na sul, com muita dificuldade, chegou a vender arreios na feira de Camela para ajudar na renda. Comprou uma terrinha, foi aumentando, prosperando, meu pai pegou as terras do engenho quase já na forma hoje. Aumentado, próspero. Fiquei com o engenho principal, comprou muita terra, longe, perto, todos os meus irmãos começaram com um bom pedaço. As meninas tiveram bom dote. Chico vendeu as dele e foi ser Doutor na corte, é gosto, o engenho, tinha uma várzea grande, terra plana, dava na beira da praia com duas fazendas de coco. Vale pouco, o cultivo não dá muito trabalho, é só ter gente para desbastar os pés. As terras da beirada d’água é que ninguém quis. Um banho salgado me fazia bem, um ou outro. Minha mãe gostava, ordem do médico, trinta banhos salgados por verão. Morar perto daquela friagem, vento de maresia, isso não é para gente, é coisa de caranguejo.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Quem Planta Cana em Ladeira 09 - (laboratório)
Esboço de uma tentativa de romance em capítulos curtos de uma velha história da cultura do açucar
IX
Lúciamaria estava com mais de dezesseis anos e solteira, esperei para fazer o casamento com o filho de Armando Albuquerque, senhor do São Roque, mas o menino resolveu estudar medicina em Salvador, lá acabou casando com uma filha de um Desembargador, perdi de vista.
Pedi a Donana para procurar informação com as freiras de Nossa Senhora do Carmo, justo nesse tempo, na festa da botada de cumeeira da casa grande do Engenho Majestade do Senhor Pedro de Souza Leão, fui apresentado ao pai desse daí o Senhor Wanderley do Tabocas. Pareceu-me um homem de bem, o rapaz alto, bem aparentado, olhos claros, agalegado. Lúciamaria agradou-se. Conversei muito com o homem, não podia imaginar que o filho não tivesse saído ao pai, ou mesmo talvez saiu, me enganei, é muito difícil, nunca aconteceu, mas pode, sabia eu lá se o velho não escondia esses defeitos? Nada atinei, convidei a família para um almoço na nossa casa. A Senhora mãe mostrou-se muito educada, de finos trejeitos, salamaleques, alva, cabelo de milho, vestida em rendas da Madeira. Trouxe acompanhando duas aias, uma mulata bem clara, quase branca, a cativa até falava francês, fez envergonhar as daqui que nem o português falam direito, carregam com o dialeto cantado deles, botando vício nas crianças da casa Grande. Nessa visita achei que não havia por que mais esperar. Marcamos o noivado. O velho disse que na festa acertaríamos os detalhes do dote. O Mata Grande já apalavrado nesse tempo, corri com a compra. Apeguei-me a essa menina, era a caçula queria que morasse aqui pertinho, fazendo divisa com as minhas terras, as outras acabaram ficando muito longe. Pensei em criar os meus netos, só tive filhas, os netos são filhos que não tive, meu sangue sem máculas, como dizia minha mãe, filho das minhas filhas meus netos são, dos meus filhos serão ou não.
Foi outro erro comprar esse engenho fronteiriço, não podia adivinhar.
IX
Lúciamaria estava com mais de dezesseis anos e solteira, esperei para fazer o casamento com o filho de Armando Albuquerque, senhor do São Roque, mas o menino resolveu estudar medicina em Salvador, lá acabou casando com uma filha de um Desembargador, perdi de vista.
Pedi a Donana para procurar informação com as freiras de Nossa Senhora do Carmo, justo nesse tempo, na festa da botada de cumeeira da casa grande do Engenho Majestade do Senhor Pedro de Souza Leão, fui apresentado ao pai desse daí o Senhor Wanderley do Tabocas. Pareceu-me um homem de bem, o rapaz alto, bem aparentado, olhos claros, agalegado. Lúciamaria agradou-se. Conversei muito com o homem, não podia imaginar que o filho não tivesse saído ao pai, ou mesmo talvez saiu, me enganei, é muito difícil, nunca aconteceu, mas pode, sabia eu lá se o velho não escondia esses defeitos? Nada atinei, convidei a família para um almoço na nossa casa. A Senhora mãe mostrou-se muito educada, de finos trejeitos, salamaleques, alva, cabelo de milho, vestida em rendas da Madeira. Trouxe acompanhando duas aias, uma mulata bem clara, quase branca, a cativa até falava francês, fez envergonhar as daqui que nem o português falam direito, carregam com o dialeto cantado deles, botando vício nas crianças da casa Grande. Nessa visita achei que não havia por que mais esperar. Marcamos o noivado. O velho disse que na festa acertaríamos os detalhes do dote. O Mata Grande já apalavrado nesse tempo, corri com a compra. Apeguei-me a essa menina, era a caçula queria que morasse aqui pertinho, fazendo divisa com as minhas terras, as outras acabaram ficando muito longe. Pensei em criar os meus netos, só tive filhas, os netos são filhos que não tive, meu sangue sem máculas, como dizia minha mãe, filho das minhas filhas meus netos são, dos meus filhos serão ou não.
Foi outro erro comprar esse engenho fronteiriço, não podia adivinhar.
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
sábado, 22 de agosto de 2009
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Quem Planta Cana em Ladeira 7 e 8 - (laboratório)
Esboço de uma tentativa de romance em capítulos curtos de uma velha história da cultura do açucar
VII
Casei as quatro, Lúciamaria parecia que ia ficar para tia. Pensei em mandar para o convento, antes tivesse mandado, melhor seria. A menina era muito prendada, cuide dela como das outras a mesma educação, essa, não estava com muita sorte em arranjar marido. Todas tiveram professor de francês e de piano. Liam, bordavam, cozinhavam, mesmo que nunca precisassem entrar numa cozinha sabiam mandar, fiscalizar os serviçais. Conheciam a história dos santos e os mandamentos da igreja, muito prendadas. Em matéria de costura desconheço na região moças assim. Jamais fiz questão em comprar os tecidos e aviamentos, recebia com todo o gosto os mascates franceses no engenho. Tinha os meus cuidados. Nunca tive tempo de aprender esses refinamentos de língua estrangeira, temia que os vendedores pudessem soltar alguma graça para as moças, costume desse povo muito moderno de pouca vergonha, e eu nunca iria ficar sabendo. O cuidado que tinha era de botar assistindo a palestra um negro de minha confiança, a ordem era ficar atento as feições das meninas, se alguma delas corasse ao ouvir do francês alguma coisa, podia quebrar o assanhado de cacete. Nunca ocorreu, ainda bem, mas desconfio que o mascate fosse alertado por elas da serventia daquele escravo armado de cacete ali na sala, antes de qualquer assunto.
Já estava conformado com a menina freira. Apareceu esse Wanderley, aquele acolá que acabou por me levar tudo. O engenho, a casa, a minha vontade de viver.
Meu pai me deu essas terras eu mal tinha botado barba, derrubei mais os negros todas as árvores da colina, rabisquei no barro as fundações dessa casa. Fiz, fui valente, trabalhei feito um condenado. Nunca tive medo de homem de bicho nem de assombração, estou velho, doente, não tenho mais forças. Deus me livre esbarrar com esse daí. No salão azul ele não entra. Pode ficar com o resto da casa. Saio não, da minha rede não desço.
Amanhã vou mandar chamar Amaro aqui ele vai me dá conta dos pães de açúcar que foram vendidos esse mês, afinal ainda sou o Senhor destas terras, tenho que ter ciência.
VIII
Cortei o morro no cocuruto, bem no cume, a casa grande tinha que ficar no mais alto do engenho, uma capelinha consagrada a Santo Antônio, homenagem aos meus pais devotos. Mandei trazer os ossos para cá, contra a vontade dos meus irmãos. Aparentado dos meus avôs portugueses, sim, minha avó chegava a ter parentesco com o santo. Orientei - como me ensinou pai -, a casa na conveniência dos ventos. Cerquei-a de terraços, fiz uma base boa, o socavão elevou, deu imponência, sete degraus para chegar ao assoalho. O portal principal para o Nordeste, os fundos para o sul, a casa ficou fresca no verão e abrigada no inverno. Fiz questão dos três salões, uma casa que se recebe tem que ter lugar para palestras e divertimentos. O salão principal, das refeições, mandei pintar de branco, meu pai deu-me a mesa de mogno com os pés trabalhados, doze lugares, cadeiras austríacas, torneadas. Mandei buscar o lustre de cristal na Europa, uma obra de arte lapidada em Veneza, do porto para o engenho levou mais de quinze dias em um carro de boi, engradado, forrado com palha. O salão a oeste pintei de verde, esse daqui do leste de azul. O verde era de música, comprei um piano alemão, sonoro, todo ano vinha um afinador da capital especialmente contratado. Tinha canapés e cadeiras, chapeleiros e cristaleiras, era uma sala agradável, indicada para a noite, estar das visitas, reuniões com os parentes e vizinhos, senhores de outras terras. Esse azul ao leste, abrigado do sol da tarde, era o salão das sestas, com os armadores de rede e uma pequena mesa, as meninas usavam-no eventualmente, quando sem visitas, para estudos, tinha alguns cabides e armários. Para trás da casa os quartos e a conzinha, no quintal os banheiros. Fiz com muito esmero tudo isso. Ocupo só o salão azul, que não tem mais a beleza daquele tempo, as paredes precisam de cal, o cupim ta mordendo ali na soleira, mas ainda é pouco a feiúra do salão, maior é a minha, e a que sinto por dentro.
VII
Casei as quatro, Lúciamaria parecia que ia ficar para tia. Pensei em mandar para o convento, antes tivesse mandado, melhor seria. A menina era muito prendada, cuide dela como das outras a mesma educação, essa, não estava com muita sorte em arranjar marido. Todas tiveram professor de francês e de piano. Liam, bordavam, cozinhavam, mesmo que nunca precisassem entrar numa cozinha sabiam mandar, fiscalizar os serviçais. Conheciam a história dos santos e os mandamentos da igreja, muito prendadas. Em matéria de costura desconheço na região moças assim. Jamais fiz questão em comprar os tecidos e aviamentos, recebia com todo o gosto os mascates franceses no engenho. Tinha os meus cuidados. Nunca tive tempo de aprender esses refinamentos de língua estrangeira, temia que os vendedores pudessem soltar alguma graça para as moças, costume desse povo muito moderno de pouca vergonha, e eu nunca iria ficar sabendo. O cuidado que tinha era de botar assistindo a palestra um negro de minha confiança, a ordem era ficar atento as feições das meninas, se alguma delas corasse ao ouvir do francês alguma coisa, podia quebrar o assanhado de cacete. Nunca ocorreu, ainda bem, mas desconfio que o mascate fosse alertado por elas da serventia daquele escravo armado de cacete ali na sala, antes de qualquer assunto.
Já estava conformado com a menina freira. Apareceu esse Wanderley, aquele acolá que acabou por me levar tudo. O engenho, a casa, a minha vontade de viver.
Meu pai me deu essas terras eu mal tinha botado barba, derrubei mais os negros todas as árvores da colina, rabisquei no barro as fundações dessa casa. Fiz, fui valente, trabalhei feito um condenado. Nunca tive medo de homem de bicho nem de assombração, estou velho, doente, não tenho mais forças. Deus me livre esbarrar com esse daí. No salão azul ele não entra. Pode ficar com o resto da casa. Saio não, da minha rede não desço.
Amanhã vou mandar chamar Amaro aqui ele vai me dá conta dos pães de açúcar que foram vendidos esse mês, afinal ainda sou o Senhor destas terras, tenho que ter ciência.
VIII
Cortei o morro no cocuruto, bem no cume, a casa grande tinha que ficar no mais alto do engenho, uma capelinha consagrada a Santo Antônio, homenagem aos meus pais devotos. Mandei trazer os ossos para cá, contra a vontade dos meus irmãos. Aparentado dos meus avôs portugueses, sim, minha avó chegava a ter parentesco com o santo. Orientei - como me ensinou pai -, a casa na conveniência dos ventos. Cerquei-a de terraços, fiz uma base boa, o socavão elevou, deu imponência, sete degraus para chegar ao assoalho. O portal principal para o Nordeste, os fundos para o sul, a casa ficou fresca no verão e abrigada no inverno. Fiz questão dos três salões, uma casa que se recebe tem que ter lugar para palestras e divertimentos. O salão principal, das refeições, mandei pintar de branco, meu pai deu-me a mesa de mogno com os pés trabalhados, doze lugares, cadeiras austríacas, torneadas. Mandei buscar o lustre de cristal na Europa, uma obra de arte lapidada em Veneza, do porto para o engenho levou mais de quinze dias em um carro de boi, engradado, forrado com palha. O salão a oeste pintei de verde, esse daqui do leste de azul. O verde era de música, comprei um piano alemão, sonoro, todo ano vinha um afinador da capital especialmente contratado. Tinha canapés e cadeiras, chapeleiros e cristaleiras, era uma sala agradável, indicada para a noite, estar das visitas, reuniões com os parentes e vizinhos, senhores de outras terras. Esse azul ao leste, abrigado do sol da tarde, era o salão das sestas, com os armadores de rede e uma pequena mesa, as meninas usavam-no eventualmente, quando sem visitas, para estudos, tinha alguns cabides e armários. Para trás da casa os quartos e a conzinha, no quintal os banheiros. Fiz com muito esmero tudo isso. Ocupo só o salão azul, que não tem mais a beleza daquele tempo, as paredes precisam de cal, o cupim ta mordendo ali na soleira, mas ainda é pouco a feiúra do salão, maior é a minha, e a que sinto por dentro.
terça-feira, 18 de agosto de 2009
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
domingo, 16 de agosto de 2009
Paulo Gervais
Oi Paulinho,
Obrigado pelos elogios ao blog, acompanho há algum tempo o seu Martirial e o Viagem ao fim da noite de Nivaldo. Quem planta cana em ladeira é inspirado em uma antiga história do meu avô sobre um parente caído em desgraça por uma negociação de dote mal feita. Tenho-a quase toda concluída, publico no blog o que consigo revisar e resumir, na verdade é um exercício de luta contra a minha natural prolixidade. Permito-me apenas cerca de mil e quinhentos caracteres a cada capítulo. Silogildo (e suas musas) nasceu de uma brincadeira em sala para os meus alunos de Filosofia e Ética, mostrava com humor os conceitos de lógica, mas, também, acabou virando um treinamento para concisão. A tirinha faz a gente compactar em, no máximo, três atos o que quer dizer, é, mal comparando, quase um haicai (invejo-o por saber fazê-los tão bem). Disponha do blog para comentar como bem entender, o melhor é que serve para a gente se comunicar e amainar a aspereza do cotidiano.
Um forte abraço,
Joaquim
Obrigado pelos elogios ao blog, acompanho há algum tempo o seu Martirial e o Viagem ao fim da noite de Nivaldo. Quem planta cana em ladeira é inspirado em uma antiga história do meu avô sobre um parente caído em desgraça por uma negociação de dote mal feita. Tenho-a quase toda concluída, publico no blog o que consigo revisar e resumir, na verdade é um exercício de luta contra a minha natural prolixidade. Permito-me apenas cerca de mil e quinhentos caracteres a cada capítulo. Silogildo (e suas musas) nasceu de uma brincadeira em sala para os meus alunos de Filosofia e Ética, mostrava com humor os conceitos de lógica, mas, também, acabou virando um treinamento para concisão. A tirinha faz a gente compactar em, no máximo, três atos o que quer dizer, é, mal comparando, quase um haicai (invejo-o por saber fazê-los tão bem). Disponha do blog para comentar como bem entender, o melhor é que serve para a gente se comunicar e amainar a aspereza do cotidiano.
Um forte abraço,
Joaquim
sábado, 15 de agosto de 2009
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